BNCC para a Educação Infantil: onde buscar formação
13 de fevereiro de 2019

Creches e pré-escolas são os espaços onde crianças passam por diversas experiências pela primeira vez, inclusive as com deficiência

PLANEJAMENTO: Nesta etapa, observar os interesses e possíveis limitações de todas as crianças é fundamental

Não demora muito: se uma criança nova chega, em pouco tempo o educador já consegue perceber se existe algo de diferente no desenvolvimento dela. Foi assim quando as pequenas Lívia e Lais chegaram à EMEI Dom Bosco, em Cruzeiro, no interior de São Paulo, há cerca de dois anos. “Elas ainda não andavam e não falavam”, lembra Heloisa Ferraz. A família pensava que essas características se davam pelo fato de elas não levantarem muito das cadeirinhas, mas com algumas semanas de trabalho a escola notou que essa hipótese poderia ser descartada.

Ocasiões assim não são raras, sobretudo na Educação Infantil: por ser o primeiro espaço, onde as crianças convivem com os pares e com educadores (especialistas em observar e compreender o desenvolvimento infantil), alguns sinais começam a ser notados. São as famosas crianças “sem laudo”. Mas o que fazer ao notar isso?

“Para o trabalho pedagógico, o diagnóstico não é importante”, defende Guacyara Guerreiro, coordenadora pedagógica da Mais Diferenças, que atua na formação de educadores para a inclusão. Trabalhar em uma perspectiva inclusiva quer dizer que o professor sempre deverá planejar atividades que contemplem as necessidades e os interesses de todas as crianças, independentemente de elas terem ou não alguma deficiência. “A BNCC estabelece seis direitos de aprendizagem para a Educação Infantil e eles devem ser contemplados”, destaca Mariane Falco, que estuda o tema em seu doutorado pela Faculdade de Educação da USP.

Diagnóstico, só pedagógico

Ao notar diferenças entre os alunos, é possível, sim, chamar as famílias para conversar, mas é preciso ser cuidadoso e usar esse momento como uma forma de fortalecer a parceria entre responsáveis e escola. “O educador não deve dar um diagnóstico, mas com delicadeza perguntar se a criança tem sido acompanhada por um pediatra e, nos casos em que isso não ocorrer, sugerir que esse acompanhamento seja feito”, diz Guacyara. Foi o que aconteceu em Cruzeiro. “Com cuidado, sugerimos que eles procurassem o apoio dos serviços de saúde. Hoje, as duas meninas têm atendimento com fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos”, explica Heloisa.

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Mas o trabalho escolar não depende de laudo ou diagnóstico clínico. Ele pode, inclusive, atrapalhar. “Queremos colocar a criança, com suas características, na frente da possível deficiência que ela possa ser”, defende Andrea Duque, responsável pela Educação Especial em Cruzeiro. A rede encoraja os professores a observar de perto as crianças e elaborar seu planejamento de acordo com as características de todo o grupo.

“Ao notar crianças com e sem deficiência que precisam desenvolver a oralidade, o professor pode conduzir o seu trabalho para promover maior participação em rodas de conversa, por exemplo, mas partindo do interesse deles”, defende Mariane. É o que acontece no Cemei Ana Rosa Falcão de Carvalho, no Recife. A professora Miriam Nogueira conta que o pequeno Daniel tem fascinação por um brinquedo da sala chamado Tomás. Em atividades artísticas, por exemplo, o pequeno costuma participar desenhando o boneco. “Ele faz direitinho expressões no personagem: deixa ele triste, ou feliz, dependendo do dia”, conta.

Brincadeiras e registros para todos

Recorrer aos documentos curriculares pode ser também de grande ajuda. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, por exemplo, estabelecem brincadeiras e interações como os dois principais eixos do trabalho na etapa. Já a BNCC desdobra esses dois eixos em seis direitos de aprendizagem. Assim, permitir que os pequenos brinquem e interajam livremente, de acordo com seus interesses, seus potenciais e suas possibilidades, além de elaborar atividades que permitam que todos possam participar, são princípios fundamentais.

Para conduzir o planejamento, conhecer todas as crianças é fundamental. Vale observar interesses e possíveis limitações. No caso daquelas que não se comunicam de maneira convencional, vale prestar atenção em sinais sutis: um brilho no olho, um sorriso, podem indicar as situações que trazem mais prazer a elas. “Toda criança brinca. Se o professor entender a brincadeira como algo que traz prazer, ele vai observar o que deixa essa criança feliz e construir seu planejamento com base nisso”, afirma Mariane.

Estabelecer parcerias também é fundamental. No Recife, a professora do atendimento educacional especializado (AEE) Anne Guimarães atua junto às professoras na concepção das atividades e também em momentos de atendimento específico. “Costumo ir ao parque ou à sala observar e, em alguns casos, mostrar como é possível trabalhar com a criança quando há mais barreiras”, explica a educadora.

Seja para trocar com a profissional especialista, seja para fortalecer a parceria com as famílias, o registro é fundamental. “Sempre que noto algo de diferente ou tenho alguma dúvida, mostro vídeos ou fotos que coletei para Anne e ela me ajuda a compreender a situação e pensar em estratégias para a sala”, comenta Miriam.

Com os pais, compartilhar os registros também pode ajudar a fortalecer os laços. Por vezes, muitos familiares ainda se prendem a concepções antigas sobre a deficiência, que afirmavam que pessoas com características muito diferentes da maioria da população não eram capazes de aprender. “É direito das famílias de acompanhar o desenvolvimento das crianças. Além de tudo, ajuda a mostrar os avanços e a participação dessas crianças no ambiente escolar, juntamente com outros alunos”, diz Mariane.

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